Este é um artigo de opinião. Portanto, o que apresento a seguir é a minha leitura dos acontecimentos, e não uma tentativa de substituir os fatos ou as decisões da Justiça.
Durante anos, o Moraes foi ampliando o poder individual dele dentro do STF. Decisão monocrática, investigação, bloqueio, censura, interferência em outros órgãos, decisões com impacto político enorme… e sempre aparecia uma justificativa jurídica para aquilo.
E aqui está o ponto que considero fundamental: quando você aceita que um ministro pode fazer determinada coisa em nome de uma situação excepcional, você não pode depois fingir que esse poder pertence exclusivamente àquele ministro.
É como entregar uma arma para uma pessoa dizendo:
“Pode usar porque a situação é excepcional.”
Depois, quando outra pessoa pega a mesma arma e diz “então eu também posso usar dentro das mesmas regras”, você não pode responder:
“Não, essa arma só pode ser usada pelo primeiro.”
Ou aceita o princípio, ou não aceita.
É exatamente isso que eu vejo acontecendo agora.
O Moraes criou e ajudou a consolidar uma forma muito mais agressiva de atuação individual do STF. Agora o Mendonça está usando algumas dessas mesmas ferramentas, só que contra o outro lado.
E aí muita gente que aplaudia quando era contra Bolsonaro começa a achar absurdo quando é contra pessoas ligadas ao outro lado.
Para mim isso é incoerência.
É como um árbitro de futebol passar boa parte da partida deixando um time fazer uma determinada coisa em campo e, quando o outro time faz exatamente igual, decidir que agora é falta.
Ou a regra vale para os dois, ou não é regra. É preferência.
E tem uma diferença enorme no caso atual que, na minha opinião, torna a postura do Mendonça muito mais justificável.
Não estamos falando simplesmente de uma briga política qualquer.
Existe uma crise envolvendo Banco Master, Polícia Federal, autoridades públicas e suspeitas que chegaram até pessoas próximas ao próprio Moraes. E quando a própria credibilidade de quem está no centro da instituição começa a ser questionada, eu acho muito mais razoável um outro ministro agir preventivamente do que simplesmente cruzar os braços.
Porque imagina o absurdo:
O ministro X possui poderes enormes para investigar, determinar medidas, bloquear, afastar, ordenar e interferir quando entende que existe uma ameaça institucional.
Aí surge uma investigação que pode atingir o próprio círculo de influência dele.
E a resposta seria:
“Bom, nesse caso vamos deixar o próprio ministro conduzir tudo normalmente porque ninguém pode interferir.”
Isso, para mim, seria uma receita perfeita para conflito de interesses.
ou seja, a impessoalidade foi por água abaixo.
É como colocar o dono de uma empresa para investigar uma denúncia contra ele mesmo e depois dizer:
“Confia que ele vai ser imparcial.”
Não faz sentido.
E é por isso que eu vejo o Mendonça de maneira diferente agora.
Não estou dizendo que ele é perfeito ou que tudo que ele decidir está automaticamente correto.
Estou dizendo que o contexto dá uma justificativa muito mais concreta para uma atuação preventiva.
E tem uma ironia enorme nisso tudo.
O Moraes pode ter ajudado a construir uma espécie de “monstro institucional” que agora pode ser utilizado contra o próprio sistema que ele representa.
É aquela história:
“Cuidado com o poder que você cria para combater seu inimigo, porque amanhã seu inimigo pode descobrir que também consegue usar esse poder.”
Se você cria um precedente permitindo que um ministro diga:
“Eu posso fazer isso porque a situação é excepcional”,
então amanhã outro ministro pode dizer:
“Eu também posso, porque considero essa situação excepcional.”
E pronto: nasceu o efeito espelho.
Por isso eu acho até que o Mendonça está fazendo o STF provar do próprio remédio.
Durante anos, muita gente dizia:
“Mas o Moraes está apenas fazendo o necessário para proteger as instituições e a democracia”.
Agora o Mendonça está dizendo, na prática:
“Então vamos proteger as instituições também.”
E é aí que começa a ficar interessante.
Porque, se a justificativa era realmente institucional, ela deveria funcionar independentemente de quem estivesse sendo atingido.
Agora, se a mesma ferramenta só é considerada legítima quando o Moraes usa contra os adversários e vira “abuso” quando outro ministro usa contra o grupo ligado a ele, então talvez nunca tenha sido apenas uma questão jurídica.
Talvez fosse uma questão de quem estava segurando a caneta.
E para mim esse é o grande problema.
O que eu quero é uma instituição em que a mesma régua seja aplicada para todo mundo.
Porque se um ministro pode afastar alguém, interferir em uma investigação ou tomar uma decisão extraordinária sozinho, isso precisa estar submetido a limites claros.
Senão vira praticamente:
“Quando eu faço, é defesa da democracia. Quando você faz, é abuso de poder.”
E essa é justamente a situação que estamos começando a enxergar.
Na minha visão, o que o Mendonça está fazendo agora é uma consequência direta do caminho que o próprio STF percorreu nos últimos anos.
O problema é que o pessoal só percebe o tamanho do poder quando a caneta muda de mão.
Enquanto a caneta estava na mão do Moraes, muita gente achava ótimo.
Agora que outro ministro está segurando a mesma caneta, estão descobrindo que talvez ela tenha sido poderosa demais desde o começo.
E, sinceramente, acho que é justamente aí que está a maior lição dessa história.
Não importa quem está segurando a caneta. O problema é ela ter poder demais.




