TIJUCAS DO SUL — Muito antes de Tijucas do Sul se transformar no município conhecido atualmente, personagens ligados à educação, à administração pública e aos grandes acontecimentos políticos ajudaram a construir a história da região. Entre esses nomes está o do Professor Francisco Manoel de Lima Camargo, personalidade que deixou sua marca na vida pública e educacional paranaense e que, décadas depois, continuaria sendo lembrada pelos moradores de Tijucas do Sul.

Seu nome permanece presente no cotidiano da cidade por meio do Colégio Estadual do Campo Professor Francisco Manoel de Lima Camargo, uma das instituições de ensino tradicionais do município.

A homenagem, porém, representa apenas uma parte de uma trajetória que atravessou diferentes períodos da história do Paraná e do Brasil.

Uma vida de 87 anos

Francisco Manoel de Lima Camargo nasceu em 12 de fevereiro de 1872.

Seu nascimento ocorreu ainda durante o período do Império do Brasil, quando o país era governado por Dom Pedro II. Naquele momento, a realidade brasileira era completamente diferente daquela que conhecemos hoje.

A República ainda estava distante — seria proclamada somente em 1889 — e a escravidão continuava existindo no país. Francisco nasceu, portanto, em uma sociedade que passaria por algumas das maiores transformações políticas e sociais da história brasileira.

Ao longo de seus 87 anos de vida, ele testemunhou mudanças que atravessaram diferentes gerações.

Nasceu no Império, viveu a Proclamação da República, acompanhou os conflitos políticos dos primeiros anos republicanos e chegou a testemunhar o Brasil de meados do século XX.

Francisco Manoel de Lima Camargo faleceu em 31 de julho de 1959, em Tijucas do Sul, no Paraná.

Tinha 87 anos.

Sua morte encerrou uma trajetória que havia começado quase nove décadas antes, em um Brasil ainda imperial.

Quem foi ele?

Membro de uma tradicional família paranaense, Francisco Manoel de Lima Camargo dedicou parte substancial de sua vida à educação e à administração pública.

Sua atuação como professor ocorreu em uma época em que o acesso à educação era muito mais limitado, principalmente nas comunidades do interior. O professor ocupava uma posição de grande importância social, muitas vezes sendo uma das principais referências culturais e intelectuais de uma comunidade.

Trecho retirado do jornal: A república – Publicado em 20 de maio de 1912

Foi nesse ambiente que Francisco construiu parte importante de seu legado.

Sua atuação na comunidade escolar marcou gerações de estudantes e fez com que seu nome permanecesse associado à educação mesmo após sua morte.

Décadas depois, essa memória seria oficialmente perpetuada pelo Estado do Paraná.

A homenagem que mantém seu nome vivo

Em 1969, dez anos após sua morte, o Estado do Paraná oficializou uma homenagem ao professor.

Por meio da Lei Estadual nº 5.991/1969, o tradicional Grupo Escolar de Tijucas do Sul passou a levar o nome de Professor Francisco Manoel de Lima Camargo.

A homenagem fez com que seu nome atravessasse gerações.

Hoje, a instituição é conhecida como Colégio Estadual do Campo Professor Francisco Manoel de Lima Camargo, localizada no município de Tijucas do Sul.

Uma testemunha da Revolução Federalista

Um dos aspectos mais marcantes da biografia de Francisco Manoel de Lima Camargo está relacionado à Revolução Federalista de 1893.

O conflito foi um dos episódios mais violentos e importantes dos primeiros anos da República brasileira.

A Revolução Federalista envolveu disputas políticas e militares que começaram no Rio Grande do Sul e se espalharam por outras regiões do Sul do Brasil, atingindo diretamente o Paraná.

Francisco tinha apenas 21 anos de idade quando o conflito começou.

Décadas mais tarde, sua condição de sobrevivente daquele período seria lembrada pela imprensa e se tornaria uma das características mais marcantes de sua trajetória.

Ele foi apresentado pelos registros da época como o último sobrevivente da Revolução de 1893.

Essa informação confere uma dimensão especial à sua história.

Francisco não era apenas um personagem que conhecia aquele período por livros ou relatos de terceiros. Ele pertenceu à geração que viveu diretamente os primeiros anos da República e atravessou um dos conflitos que ajudaram a definir a história política do Sul do Brasil.

Do Império à República

A longevidade de Francisco permite compreender a dimensão histórica de sua vida.

Quando nasceu, em 1872, o Brasil ainda era uma monarquia.

Quando tinha 17 anos, ocorreu a Proclamação da República, em 1889.

Quatro anos depois, aos 21, teve início a Revolução Federalista.

Durante sua vida, também acompanhou a consolidação da República, as mudanças políticas das primeiras décadas do século XX, a transformação das cidades, o desenvolvimento das comunicações e o surgimento de novas tecnologias.

Quando morreu, em 1959, o Brasil já era um país completamente diferente daquele em que havia nascido.

O rádio já fazia parte do cotidiano, a televisão começava a se consolidar, os automóveis já circulavam pelas cidades e o país caminhava para um processo acelerado de industrialização.

Francisco viveu praticamente toda essa transformação.

Atuação na administração pública

Além da educação, registros publicados em diários oficiais apontam que Francisco Manoel de Lima Camargo também esteve ligado à administração pública paranaense.

Sua trajetória aparece relacionada a instâncias administrativas e fazendárias do Estado nas primeiras décadas do século XX.

Esses registros ajudam a mostrar que sua atuação foi além da sala de aula.

Francisco participou da vida pública em um período em que o Paraná ainda estava estruturando suas instituições administrativas e ampliando sua organização estatal.

Sua presença nesses registros oficiais demonstra a relevância que alcançou dentro da sociedade de sua época.

O dia de sua morte

Francisco Manoel de Lima Camargo faleceu em 31 de julho de 1959, em Tijucas do Sul.

A imprensa da época registrou a morte da personalidade local e destacou justamente uma das características que tornavam sua história singular: sua condição de sobrevivente da Revolução de 1893.

A notícia publicada dizia:

“Falaceu, ontem, em Tijucas do Sul, o Prof. Francisco Lima Camargo, pertencente a tradicional família paranaense e último dos sobreviventes da revolução de 1893. Seu entêrro dar-se-à hoje, às 9,00 horas, naquela localidade.”

O registro mostra que, naquele momento, a população perdia não apenas um professor e integrante da comunidade, mas também uma pessoa que carregava consigo uma memória histórica de mais de seis décadas.

O legado na educação

Apesar da importância histórica de sua relação com a Revolução de 1893, sua memória também está profundamente ligada à educação.

A homenagem feita pelo Estado do Paraná em 1969 demonstra que sua atuação como professor teve importância suficiente para permanecer registrada oficialmente.

A escola que recebeu seu nome transformou sua memória em parte da rotina de milhares de estudantes ao longo das décadas.

Cada nova geração que passa pela instituição entra em contato, ainda que indiretamente, com o nome de alguém que viveu em um período completamente diferente do atual.

Uma história que merece ser conhecida

Em uma época marcada pela velocidade das informações, histórias como a de Francisco Manoel de Lima Camargo ajudam a lembrar que os municípios também possuem personagens que merecem ser conhecidos.

Nem sempre essas histórias estão presentes nos livros didáticos ou nos grandes relatos nacionais.

Muitas vezes, estão nos documentos antigos, nos jornais, nos arquivos públicos, nas escolas e nas memórias das famílias.

No caso de Francisco, existe ainda um elemento particularmente simbólico: o próprio nome continua sendo utilizado diariamente em Tijucas do Sul.

A escola que leva seu nome faz com que uma pessoa nascida em 1872 continue sendo lembrada por estudantes mais de 150 anos depois de seu nascimento.

Uma vida entre dois séculos

A história de Francisco Manoel de Lima Camargo pode ser resumida por algumas datas que ajudam a dimensionar sua trajetória:

12 de fevereiro de 1872 — nascimento de Francisco Manoel de Lima Camargo.

1889 — Proclamação da República, quando Francisco tinha 17 anos.

1893 — início da Revolução Federalista, quando tinha 21 anos.

Primeiras décadas do século XX — atuação ligada à educação e a instâncias administrativas e fazendárias do Paraná.

31 de julho de 1959 — falecimento, aos 87 anos, em Tijucas do Sul.

1969 — o Estado do Paraná oficializa a homenagem que perpetua seu nome na instituição de ensino do município, por meio da Lei Estadual nº 5.991.

Francisco Manoel de Lima Camargo pertenceu a uma geração que testemunhou algumas das maiores mudanças da história brasileira.

Mas seu legado não está apenas nos acontecimentos históricos dos quais foi contemporâneo.

Está também na educação, na administração pública e na memória de Tijucas do Sul.

Hoje, quando estudantes entram no Colégio Estadual do Campo Professor Francisco Manoel de Lima Camargo, poucos talvez imaginem a história existente por trás daquele nome.

Um homem nascido em 12 de fevereiro de 1872, ainda durante o Império, viveu 87 anos, atravessou a mudança de regime político do Brasil, testemunhou a Revolução Federalista e morreu em 31 de julho de 1959, na própria Tijucas do Sul.

Mais de seis décadas após sua morte, seu nome continua presente.

E talvez esse seja o maior sinal de que uma memória realmente sobrevive ao tempo: quando as gerações mudam, mas o nome continua sendo pronunciado.