Em 1973, o Brasil acompanhava um dos desaparecimentos mais misteriosos de sua história.
No dia 2 de agosto, em Laranjeiras, na Zona Sul do Rio de Janeiro, o menino Carlos Ramires da Costa, conhecido como Carlinhos, desapareceu de dentro de sua própria casa.
A família estava reunida quando uma queda de energia mergulhou o imóvel na escuridão.
Foi naquele momento que um homem entrou na residência e levou o menino de apenas 10 anos.
Um bilhete exigindo dinheiro foi deixado para trás. O resgate chegou a ser preparado, mas o sequestrador nunca apareceu.
Carlinhos nunca voltou.
Durante meses, seu rosto estampou jornais, revistas e programas de televisão. O país inteiro acompanhou as buscas.
Mas os anos passaram.
E o menino continuava desaparecido.
Dez anos depois, em 1983, uma história completamente diferente começava a chamar atenção no Rio Grande do Sul.
Em Caxias do Sul, vivia um jovem chamado Laudelino Fô.
Ele tinha uma história incomum.
Não sabia explicar direito quem eram seus pais, não possuía lembranças claras dos primeiros anos de sua vida e carregava consigo uma origem praticamente desconhecida.
Até que uma pessoa viu sua imagem em uma reportagem de televisão que relembrava o desaparecimento de Carlinhos.
Havia semelhanças físicas.
Havia também a idade aproximada.
E, principalmente, havia uma história de infância que ninguém conseguia explicar.
A possibilidade começou a ser levantada:
E se Laudelino Fô fosse, na verdade, Carlinhos?
A notícia chegou à imprensa e às autoridades.
E foi nesse momento que a história começou a ser reconstruída.
Laudelino passou a ser questionado sobre seu passado.
De onde tinha vindo?
Quem eram seus pais?
Onde havia vivido antes de chegar ao Rio Grande do Sul?
E foi então que surgiu uma informação que levaria essa história diretamente ao interior do Paraná.
Laudelino contou que não havia começado sua vida em Caxias do Sul.
Antes de chegar ao Rio Grande do Sul, ele havia passado pelo Paraná.
E entre os lugares que apareceram em sua história estava uma pequena cidade que, provavelmente, jamais imaginaria ter qualquer ligação com aquele famoso caso policial:
Tijucas do Sul.
Segundo os relatos registrados na época, Laudelino teria sido encontrado ainda jovem na região rural do município.

Era um rapaz sem documentação, com poucas referências sobre sua origem e aparentemente sem uma família que pudesse ser localizada.
Moradores da região teriam ajudado a acolhê-lo.
Entre os nomes ligados a essa passagem aparece Pedro Alves dos Santos, conhecido como Pedro do Matulão, personagem citado nos registros e jornais antigos pesquisados sobre o episódio.
Laudelino teria recebido ajuda e trabalho de moradores e lavradores da região.
Mas, em algum momento, sua trajetória seguiu para São José dos Pinhais.
E foi justamente ali que sua identidade passou a ser formalizada.
Segundo os registros históricos, Pedro teria ajudado o jovem a obter seus primeiros documentos.
Foi então que apareceu oficialmente o nome:
Laudelino Fô.

Mas o documento não resolvia o mistério.
Pelo contrário.
Ele apenas criava uma nova identidade para alguém que continuava sem saber exatamente quem era.
Não havia uma filiação capaz de revelar seus pais.
Não havia informações suficientes sobre seus avós.
Não havia documentos anteriores que explicassem sua infância.
Era como se Laudelino tivesse surgido no mundo já adolescente.
E agora, diante da suspeita de que ele pudesse ser Carlinhos, aquela história precisava ser revisada.
As autoridades queriam saber se o jovem de Caxias do Sul poderia realmente ser o menino desaparecido no Rio de Janeiro dez anos antes.
Laudelino foi levado ao Rio.
E então aconteceu o encontro que poderia mudar tudo.
De um lado, estava Maria da Conceição Ramires da Costa, mãe de Carlinhos.
Do outro, um homem que afirmava ter perdido as próprias referências familiares e que agora era apontado como o menino que ela procurava havia uma década.
A emoção tomou conta do encontro.
Maria da Conceição teria visto semelhanças e chegou a acreditar que aquele rapaz poderia ser seu filho.
Para Laudelino, também existia a possibilidade de finalmente descobrir quem era.
Mas a emoção não era suficiente.
Era preciso provar.
Fotografias foram analisadas.
Memórias foram confrontadas.
Perguntas foram feitas.
E foi justamente aí que começaram a aparecer as contradições.
Laudelino lembrava de alguns acontecimentos, mas não conseguia explicar outros.
Misturava nomes, datas e lugares.
Sua narrativa sobre a infância era fragmentada.
Falava de diferentes cidades, de pessoas que teriam cuidado dele, de um período ligado a uma família circense e até de situações de cativeiro e uso de medicamentos.
Mas não havia uma prova capaz de conectar definitivamente aquela história ao desaparecimento de Carlinhos.
E havia uma dificuldade que hoje parece inimaginável:
em 1983, não existia no Brasil a possibilidade de simplesmente realizar um teste de DNA para resolver a dúvida.
As autoridades dependiam dos documentos, das características físicas, das fotografias, dos depoimentos e das memórias.
No final, a possibilidade de Laudelino ser Carlinhos foi descartada.
A esperança que havia surgido em Caxias do Sul terminou.
Mas uma pergunta permaneceu.
Porque descobrir que Laudelino não era Carlinhos não explicava quem ele realmente era.
Quem era aquele jovem que apareceu no Paraná sem passado?
Sua trajetória parecia espalhada por diferentes lugares.
Um circo.
Tijucas do Sul.
Lavradores.
Pedro Alves dos Santos, o Pedro do Matulão.
São José dos Pinhais.
O registro que lhe deu o nome de Laudelino Fô.
Depois, o caminho até o Rio Grande do Sul.
E finalmente Caxias do Sul, onde seu rosto acabaria sendo associado ao desaparecimento de uma criança que havia chocado o Brasil.
Carlinhos nunca foi encontrado.
E Laudelino nunca conseguiu descobrir completamente sua verdadeira origem.
É isso que torna essa história tão inquietante.
A ligação entre os dois não começou em Tijucas do Sul.
Ela começou em Caxias do Sul, quando alguém levantou a possibilidade de que Laudelino pudesse ser Carlinhos.
E, quando começaram a investigar quem era aquele homem, o passado levou as autoridades até o Paraná.
Até São José dos Pinhais.
E antes disso, até uma pequena cidade rural chamada:
Tijucas do Sul.
Foi ali que, anos antes de seu nome aparecer nas manchetes nacionais, aquele jovem sem identidade havia passado.
Talvez os moradores que o acolheram jamais imaginassem que estavam diante de alguém que, uma década depois, seria colocado frente a frente com a mãe de um dos meninos desaparecidos mais conhecidos do Brasil.
No fim, Carlinhos continuou desaparecido.
Laudelino continuou sem conhecer completamente sua origem.
E a história deixou duas perguntas que atravessaram décadas:
Onde está Carlinhos?
E, talvez ainda mais intrigante:
quem era Laudelino Fô antes de chegar a Tijucas do Sul?




