Pouca gente imagina, mas as matas de Tijucas do Sul já produziram um dos recursos naturais mais valiosos do século passado. Muito antes da internet, dos smartphones e da tecnologia moderna que conhecemos hoje, uma árvore nativa da Mata Atlântica ajudava a movimentar uma cadeia econômica que ligava o interior do Paraná e de Santa Catarina aos grandes centros industriais do mundo.

Estamos falando do sassafrás (Ocotea odorifera), uma espécie que por décadas foi explorada intensamente devido ao óleo extraído de sua madeira e de suas raízes. Rico em safrol, esse óleo tornou-se uma matéria-prima estratégica para a indústria química internacional e despertou o interesse de empresas e instituições ligadas aos mais avançados projetos tecnológicos da época.

O “ouro líquido” das nossas matas

Durante grande parte do século XX, o óleo de sassafrás foi considerado um produto de alto valor comercial. Sua extração movimentou a economia regional e transformou áreas de Tijucas do Sul e do norte de Santa Catarina em importantes fornecedoras dessa matéria-prima. Enquanto Tijucas do Sul possuía extensas áreas de ocorrência natural da espécie, municípios como São Bento do Sul se destacavam na logística, processamento e comercialização do produto, que seguia para os portos brasileiros e posteriormente para diversos países. O chamado “ouro líquido” era utilizado na fabricação de produtos químicos especiais, resinas industriais, fragrâncias, medicamentos e compostos de alta tecnologia que exigiam matérias-primas com características específicas.

A ligação com a corrida tecnológica

Em plena Guerra Fria, período marcado pela disputa tecnológica entre Estados Unidos e União Soviética, diversas matérias-primas naturais passaram a ter importância estratégica para a indústria mundial. Relatos históricos apontam que o óleo de sassafrás brasileiro chegou a ser adquirido por empresas e fornecedores ligados ao setor aeroespacial devido às suas propriedades químicas e resistência a condições extremas. O safrol extraído da planta servia como base para a produção de compostos utilizados em diferentes segmentos industriais de alta tecnologia.

Embora nem sempre aparecesse nos noticiários ou nos livros de história, a matéria-prima extraída das florestas do Sul do Brasil fazia parte de uma complexa cadeia produtiva que abastecia mercados internacionais durante uma das épocas mais decisivas do desenvolvimento científico mundial.

Uma riqueza que saía da região

Apesar da grande demanda internacional, a prosperidade não era distribuída de forma igual. O trabalho de extração era pesado e realizado, em grande parte, por trabalhadores rurais que passavam dias nas matas derrubando árvores, transportando madeira e operando as antigas destilarias conhecidas como “tinas”, onde o óleo era extraído através do vapor. Enquanto grandes exportadoras e intermediários lucravam com o comércio internacional, muitos dos trabalhadores envolvidos na produção recebiam apenas o suficiente para garantir a subsistência de suas famílias. Foi uma atividade que movimentou recursos importantes para a região, mas cujo maior retorno econômico acabou ficando concentrado longe das comunidades onde a matéria-prima era produzida.

Da exploração à preservação

O sucesso comercial do sassafrás teve um preço alto para a natureza. Décadas de exploração intensa reduziram drasticamente a quantidade de exemplares da espécie na Mata Atlântica. Em diversas regiões, a árvore praticamente desapareceu, levando órgãos ambientais a estabelecerem regras rígidas de proteção. Hoje, o corte da espécie é proibido e o sassafrás é considerado um importante símbolo da necessidade de preservação dos recursos naturais brasileiros.

Um capítulo pouco conhecido da história regional

A trajetória do sassafrás mostra como uma árvore nativa das matas de Tijucas do Sul esteve conectada a acontecimentos muito maiores do que se poderia imaginar. O que nascia silenciosamente nas florestas da região acabava integrando uma cadeia econômica global que alcançava indústrias, laboratórios e centros tecnológicos ao redor do mundo. Preservar os exemplares que ainda existem é também preservar a memória de uma época em que o interior do Paraná participou, ainda que discretamente, de uma das maiores transformações tecnológicas da história moderna.Conhecer essa história é compreender que nossas matas guardam não apenas biodiversidade, mas também capítulos surpreendentes da construção do mundo contemporâneo.

Fonte principal: APREMAVI – Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida. Pesquisa e adaptação: Equipe TVTJ.

Da mata de Tijucas do sul ao mundo